Campanha da Fraternidade ou campanha eleitoral?

 Campanha da Fraternidade ou campanha eleitoral?

Nacional – A Campanha da Fraternidade nasceu como um caminho de conversão na Quaresma, um convite à penitência, à mudança de vida e ao combate ao pecado pessoal. Aos poucos, porém, foi sendo empurrada para um outro terreno: o das agendas sociais tratadas mais como pauta militante do que como fruto da espiritualidade cristã.

Para 2026, com o tema “Fraternidade e Moradia” e o lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14), a CNBB afirma querer refletir sobre o direito à moradia digna e a justiça social. Na prática, muitos fiéis enxergam no Texto‑Base uma leitura carregada de jargões políticos, com o Estado apresentado como protagonista quase exclusivo da solução, elogios a modelos específicos de gestão e um olhar simpático a movimentos ligados à esquerda radical. O risco é óbvio: transformar o que deveria ser um apelo à conversão em manual de engajamento ideológico.

Não se discute que moradia é um problema sério e que a Igreja deve olhar com atenção para quem vive em cortiços, ocupações e áreas de risco. O problema está em como o tema é abordado: quando o fiel é conduzido mais a abraçar agendas partidárias e movimentos específicos do que a confrontar a própria vida com o Evangelho, a Campanha deixa de ser espiritual e passa a ser um instrumento de militância. Em ano eleitoral, essa confusão fica ainda mais grave, porque qualquer ênfase seletiva pode ser lida como recado político, ainda que indireto.

Há anos cresce o desconforto dentro da própria Igreja com esse caminho. Bispos, padres e leigos questionam um material que, em vez de ajudar o povo a rezar, se parece cada vez mais com cartilha sociológica, recheada de conceitos de moda e de termos mais comuns em assembleias partidárias do que em documentos pastorais. Resultado: retração nas adesões, boicotes à coleta da solidariedade e um afastamento silencioso de muitos católicos que enxergam na Campanha da Fraternidade algo que já não dialoga com sua fé, mas com uma agenda alheia ao altar.

Talvez seja a hora da CNBB fazer um exame de consciência e recolocar a Campanha no seu devido lugar: serviço à Quaresma, não à política; instrumento de conversão, não de polarização. Se a Igreja deseja falar de moradia, que o faça à luz do Evangelho, sem se deixar capturar por discursos prontos, lembrando que a primeira “casa” que precisa ser arrumada, antes de qualquer programa social, é o coração de cada fiel.

Imagem: Divulgação/CNBB

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O Jornaleiro

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