EXPLORAÇÃO SEXUAL: Crianças na mira digital
Riscos vão de golpes financeiros a exposição íntima, e especialistas alertam: falta cultura de segurança até em prefeituras
São Bento do Sul – A internet virou extensão da vida real, mas a maioria das pessoas ainda se comporta como se estivesse em um “parquinho sem perigo”. O alerta é do investigador da Polícia Civil de Santa Catarina, Elias Edenis, especialista em crimes cibernéticos, que participou de seminário contra o abuso e exploração sexual infanto juvenil em São Bento do Sul e chamou atenção para a vulnerabilidade de crianças, adolescentes, famílias, empresas e órgãos públicos diante das ameaças digitais.
Segundo ele, já não existe investigação criminal relevante sem algum elemento de informática. De golpes em contas pessoais a ataques milionários a empresas e prefeituras, o caminho passa por celulares, computadores e redes conectadas. “Hoje não tem mais investigação sem um pezinho na informática”, resume.
A criança vítima e a criança “esperta”
De um lado, crianças e adolescentes expostos a estranhos, aliciadores e golpistas. De outro, jovens cada vez mais habilidosos em tecnologia, mas sem noção clara de limites legais e éticos.
Edenis explica que adolescentes se expõem demais: postam fotos pessoais, informam onde estudam, bairro onde moram, rotina da família. “Eles já estão espertos em algumas coisas, mas continuam vulneráveis em outras, especialmente quando não têm orientação de segurança”, aponta.
Ao mesmo tempo, cresce o grupo de adolescentes que tenta “brincar de hacker”, invadindo contas de jogos, dispositivos de colegas e até abrindo câmera e microfone de celulares alheios. O investigador defende que esse interesse seja canalizado para o lado certo: cursos, formação técnica e carreiras em segurança da informação, área que já paga valores altos por testes de invasão autorizados e profissionais especializados.
Celular da família: porta escancarada
Um hábito comum, tal qual e perigoso, é entregar o celular para o filho ou o neto “brincar um pouco”. Dentro do aparelho, porém, estão aplicativos de banco, acesso a serviços públicos, contas em redes sociais e informações pessoais sensíveis.
Para ter benefícios extras em jogos, muitas crianças baixam aplicativos fora das lojas oficiais. É aí que entra o risco de vírus e malwares, que podem roubar dados bancários, logins, senhas e até sequestrar informações do dispositivo. “A pessoa perde dinheiro, mas pode perder também a reputação, quando fotos íntimas ou vídeos pessoais são vazados”, alerta o investigador.
A recomendação é clara: nunca instalar aplicativos fora das lojas oficiais; manter senhas fortes; não compartilhar aparelho destravado com crianças; e revisar constantemente o que está instalado no celular ou tablet da família.
Jogos online e o vício em apostas
Outro ponto de atenção são os jogos e apostas. Plataformas de “bets”, proibidas em vários países, ganharam espaço no Brasil. Mesmo quando crianças não têm acesso direto a sites de aposta, muitos jogos aparentemente inocentes já introduzem a lógica do ganho fácil em moedas virtuais, que podem ser monetizadas.
“Começa com uma moedinha virtual e, lá na frente, vira problema real na vida financeira do jovem”, explica Edenis. A preocupação é que o hábito de apostar se normalize cedo demais, abrindo caminho para dependência, endividamento e fraudes.
Prefeituras e empresas na rota dos hackers
Não são só pessoas físicas que estão na mira. Empresas privadas e órgãos públicos têm sofrido ataques milionários. Casos de furtos via invasão de sistemas, sequestro de dados com pedido de resgate e vazamento de informações de toda uma cidade já se tornaram rotina.
“Prefeituras são alvo porque concentram dados valiosos: saúde, segurança, cadastro de munícipes. Com esses dados, o criminoso cria empresas, abre contas, pratica fraudes em série”, explica o investigador. Em muitos municípios, faltam profissionais de cibersegurança e treinamentos básicos para servidores. Isso abre brechas que permitem desde desvio de dinheiro público até exposição em massa de dados de cidadãos.
Proteção digital: todo mundo precisa
Edenis defende que a segurança digital seja tratada como cultura, não como luxo técnico. “Existe protocolo de segurança para todo mundo: do presidente da República ao dono do bar, da dona de casa ao pedreiro. Todos têm um pezinho na vida digital e podem ser vítimas de golpes”, afirma.
Entre as orientações básicas estão:
- aprender o mínimo de segurança digital (configurações de privacidade, senhas, autenticação em duas etapas);
- desconfiar de links e aplicativos desconhecidos;
- falar abertamente com crianças e adolescentes sobre riscos, ética e responsabilidade na internet;
- investir, no caso de empresas e órgãos públicos, em profissionais especializados e treinamentos contínuos.
No mundo conectado, a fronteira entre online e offline praticamente desapareceu. A mensagem do especialista é direta: quem não leva segurança digital a sério corre o risco de pagar caro, com dinheiro, com dados e, muitas vezes, com a própria paz.
Foto: Luzardo Chaves/O Jornaleiro





